Curso Livre O Ensaio Audiovisual e a Escrita sobre Cinema

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De 30 de Janeiro a 17 de Fevereiro na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA)

Professora Responsável: Professora Doutora Margarida Medeiros

Formadores:

Luís Mendonça – Doutorado em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA), onde tirou o seu mestrado no curso de Cinema e Televisão. Produziu várias aulas e textos sobre a relação entre criação, cinefilia e crítica. Editor do site À pala de Walsh.

Luís Miguel Correia – Realizou as curtas-metragens Estação e Crónica Parisiense e o documentário Pedro Calapez – Trabalhos do Olhar, entre outros. Trabalhou na montagem de vários documentários, longas e curtas-metragens de ficção. Coordenador técnico do Laboratório de Criação Cinematográfica do Departamento de Ciências da Comunicação da FCSH/NOVA.

Oradores convidados:

Margarida Leitão – Formou-se em montagem de cinema e é mestre em Desenvolvimento de Projeto Cinematográfico, na especialidade Dramaturgia e Realização, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Além de se dedicar à realização, trabalha regularmente como montadora e anotadora. Realizou várias curtas metragens de ficção e documentários que foram exibidos em festivais por todo o mundo e na televisão. O seu último filme Gipsofila foi premiado internacionalmente. No Curtas Vila do Conde 2016 mostrou o seu ensaio audiovisual Gestos do realismo.

Ricardo Vieira Lisboa – Programador do IndieLisboa e editor do site À pala de Walsh. Actual mestrando na Escola Superior de Teatro e Cinema. Ganhou o prémio para a melhor curta-metragem de escola no QueerLisboa 2016 pelo seu ensaio audiovisual Children, Madonna and Child, Death and Transfiguration.

Tiago Baptista –  Doutorado pela Universidade de Londres (Birkbeck College) em Film and Screen Media com a tese “Lessons in looking: the digital audiovisual essay”. Coordenador editorial da Aniki: Revista Portuguesa da Imagem em Movimento, editado pela Associação de Investigadores da Imagem em Movimento (AIM). Trabalha também como conservador na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.

Duração e horário:

45 horas. Duas aulas de hora e meia por dia (de segunda à sexta), das 18h às 21h.

Custo de inscrição:

Público em geral: 200 euros. Associados INATEL/ACP: 160 euros. Estudantes e docentes NOVA/Alumni FCSH: 180 euros.

Número máximo de participantes:

 16.

ECTS:

2.

 Objectivos:

  • Exposição de maneiras alternativas de análise e transmissão do conhecimento do cinema a partir da apresentação de algumas “boas práticas” em matéria de criação crítica, da crítica em papel ao ensaio audiovisual digital.
  • Apresentação de alguns casos de estudo paradigmáticos da imbricação da crítica com a criação artística.
  • Disponibilização aos alunos das ferramentas e das condições pedagógicas necessárias para a produção de um objecto, em texto ou em vídeo, que veicule artisticamente uma ideia ou uma argumentação crítica sobre o cinema.
  • Exibição pública destes objectos, assegurada na própria planificação do workshop, com o fito de tornar o pensamento crítico/teórico sobre os filmes e a prática cinematográfica numa dialéctica visível e produtiva, isto é, condução deste workshop a resultados concretos que propiciem uma experiência completa ao formando, da ideação à exibição/publicação do objecto produzido.

O nosso “cartão de visita”: 

O Cinema que Vê, filme de Beatriz Saraiva produzido na edição anterior do nosso Curso, seleccionado em 2016 pelo IndieLisboa.

Programa:

             No dia em que poderá dispor de um certo material cinematográfico como se dispõe de citações em literatura, nesse dia, o projecto de Godard poderá efectivamente ser realizado, e eu desejo isso com todo o meu coração.

Jean Mitry em 1979 a propósito do, ainda por “redigir”, Histoire(s) du cinéma de Jean-Luc Godard

O futuro da reflexão, crítica e académica, sobre o cinema passará inevitavelmente pela criação de uma caneta-câmara que permita uma escrita realizada directamente sobre as imagens. Godard, que nunca deixou de se assumir como um crítico de cinema, dizia que as imagens eram complementos de ideias. Ora, o ensaio audiovisual propõe despertar essas ideias na pele das próprias imagens. Roland Barthes referia a actividade da crítica como um embate com a insuficiência, ou os limites, da linguagem. Filomena Molder afirma que a obra contém em si as condições da sua própria criticabilidade.

O que este Curso Livre* propõe é fornecer as ferramentas para se construir ou desconstruir um edifício, bloco a bloco, no contacto directo com os materiais dessa construção ou desconstrução. Ao cinema o que é do cinema? Em 1979, Jean Mitry antevia no projecto louco de Godard, de fazer um filme não sobre mas que contivesse a sua visão particular da história do cinema, a possibilidade de formação de um cinema que ensinasse cinema. Através do ensaio audiovisual, promete-se, assim, a concretização de uma crítica imanente tal como a formulou Benjamin na sua colecção de citações ou montagem paracinematográfica que é O Livro das Passagens. Se outrora citar directamente a imagem de um filme era um problema técnico e epistémico demasiado problemático para ser encarado, hoje as novas tecnologias impõem um pensamento não tanto sobre as imagens, mas já “entre elas”, “com elas”. Uma nova metodologia ou, mais, uma nova epistemologia afirma-se, já que com o acesso a um conhecimento (um argumento, uma tese, uma ideia ou um conjunto de ideias) revelado em si, estaremos no limiar da pura crítica: “a pura crítica por citações”, escreveu Benjamin com desencanto e ansiando a mudança, “permanece ainda inteiramente por elaborar”.

Este workshop incidirá sobre novas maneiras de ver, pensar e dar a pensar o cinema. Serão dados a ver exemplos contextualizados de prosa crítica que desafiam os limites da linguagem, promovendo uma aproximação quase táctil às imagens do cinema. Iremos percorrer a história da crítica de cinema que traça tangentes a este modus de pensar o cinema que, hoje, tem como forma dominante o ensaio audiovisual digital. Trabalharemos sobre textos críticos de Jean-Luc Godard, Serge Daney, Louis Skorecki, Manny Farber, Jonas Mekas e Mark Rappaport.

Para além desta metacrítica que se elabora no texto, percorreremos os antepassados do ensaio audiovisual. Uma genealogia que nos levará ao trabalho desenvolvido pelas vanguardas artísticas, onde o regime da criação era governado menos pela dimensão crítica do que pelas dimensões da sensação e do belo. Serão apresentados e analisados os casos singulares de Joseph Cornell, Ken Jacobs, Martin Arnold, Peter Tscherkassky, Gustav Deutsch e Bill Morrison.

Transmitida a pré-história desta forma emergente, constituiremos um corpus de ensaios audiovisuais que servirá aos formandos como um menu possível para as suas próprias experimentações. Filmes ensaísticos de Adrian Martin e C. Álvarez López, Kevin B. Lee, Kogonada, Catherine Grant e Mark Rappaport serão exibidos e discutidos.

A segunda parte – concomitante à primeira – deste workshop dedica-se à experimentação, isto é, tentativa de transformação do conhecimento transmitido na concretização de um objecto original, onde sobressaia o modus de uma crítica pura ou imanente. Serão criadas as condições e dado o necessário acompanhamento técnico para que cada formando possa traduzir uma ideia e/ou argumento crítico numa pequena montagem fílmica ou num texto metacrítico que se proponha romper com os limites convencionais da linguagem crítica e académica.

A criação de janelas de exibição e publicação dos objectos resultantes deste workshop é assegurada por um conjunto de parcerias que muito nos honram, a saber:

  • O IndieLisboa assegura a passagem de pelo menos um dos filmes produzidos no workshop.
  • No campo do online, o site de cinema À pala de Walsh, o site do DCC Medialab da FCSH/NOVA e a publicação electrónica, de ensaio e vídeo, ESC:ALA disponibilizam janelas de exibição para alguns dos filmes realizados.
  • O Bazar do Vídeo facultará aos alunos um conjunto de vantagens no acesso a tecnologia de realização e montagem.
  • O blogue My Two Thousand Movies será nosso parceiro mediático, acompanhando o processo de criação no workshop com um ciclo.

*- “Um curso livre é um curso de curta duração que ministra conhecimentos em áreas científicas e profissionais específicas. Os cursos livres da FCSH/NOVA são validados pelo Conselho Científico e não conferem grau académico, apenas a emissão de um certificado, podendo estar prevista a atribuição de créditos.”


Bibliografia:

BRENEZ, Nicole et al., Jean-Luc Godard : Documents, Paris: Centre Georges Pompidou Service Commercial, 2006, pp. 286291;
BRENEZ, Nicole, «La Critique comme concept, exigence et praxis», La Furia Umana (edição online), número 17, Outubro 2013: http://www.lafuriaumana.it/index.php/29-archive/lfu-17/1-la-critique-comme-concept-exigence-et-praxis;
CARDERO, Luis Navarrete, ¿Qué es la crítica de cine?, Madrid, Editorial Síntesis, 2013;
CLAYTON, Alex, KLEVAN, Andrew (ed.), The Language and Style of Film Criticism, Londres e Nova Iorque, Routledge, 2013;
DOUCHET, Jean, L’art d’aimer, Paris, Cahiers du cinéma, 2003;
GODARD, Jean-Luc, Introduction to a True History of Cinema and Television, Montreal, Caboose, 2014;
LYON-CAEN, Gilles (ed.), La critique de cinéma à la épreuve d’Internet, Lavérune, L’entretemps éditions, 2014;
MENDONÇA, Luís, «Para lá do problema da linguagem: Manny Farber e a escrita cinema como boa prática», in Rowland, Clara, e Bértolo, José (orgs.), A Escrita Cinema: Ensaios, Lisboa, Documenta, 2015;
ROSENBAUM, Jonathan, Goodbye Cinema, Hello Cinephilia: Film Culture in Transition, Chicago e Londres, The University of Chicago Press, 2010;
ROSENBAUM, Jonathan, MARTIN, Adrian, Movie Mutations: The Changing Face of World Cinephilia, Londres, British Film Institute, 2003;
SCOTT, A.O., Better Living Through Criticism, Londres, Jonathan Cape, 2016.

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